09 novembro, 2003

O melhor disco (ou CD) de música brasileira de todos os tempos


Essa é a caixa - não consegui imagem pequena do CD, mas se você quiser ver como é a capa, tá aqui

A boa gravadora Biscoito Fino, que organizou a caixa "Faxineira das canções", de Elizeth Cardoso, parece que dá mais uma chance aos pobres mortais de adquirirem o melhor CD da história da MPB. Me disseram que o disco "Ao vivo no Teatro João Caetano com Zimbo Trio, Jacob do Bandolim e Época de Ouro" está disponível fora da caixa, ou seja, ainda mais barato que os R$ 70 que se paga pela caixa inteira(no site da Som Livre, com mais três CDs (até desnecessários, na minha opinião). Se quando o LP foi lançado, no final de 1969 (eu tinha pouco mais de um ano), já era possível que críticos especializados como Sérgio Cabral (o pai) classificassem o mesmo como "o maior disco da MPB", depois que o CD duplo acrescentou nada menos que 26 músicas, aí a discussão efetivamente termina.
Somente a audição sem pressa desse excepcional show pode dar uma dimensão da grandeza de todos os músicos envolvidos nesse show inigualável. Para começo de conversa, Elizeth e Zimbo Trio se entendiam bem, assim como Elizeth e Jacob - que foi seu descobridor, em 1963. Mas a totalidade dos músicos, inclusive o conjunto Época de Ouro (espetacular), não tinha o menor entrosamento, e apenas se encontraram NA VÉSPERA do grande show, realizado em 19 de fevereiro de 1969. O objetivo era arrecadar recursos para o Museu da Imagem e do Som, que na época lançaria o LP. O disco é tão síntese do que é o Brasil que na véspera do show os músicos se entrosaram por meio de uma...feijoada.
No repertório do CD lançado este ano pela Biscoito Fino, a síntese do que a música brasileira havia produzido de melhor até aquele ano - e talvez o repertório não mudasse tanto se Elizeth estivesse viva. As canções escolhidas são incríveis.
De Vinícius, ela canta a capella um número de arrepiar: "Serenata do Adeus". No LP, só tinha essa música cantada sem acompanhamento. No CD, com a íntegra do show, Elizeth emenda com "Canção do Amor Demais" ("Quero chorar/porque te amei demais/quero morrer/porque me deste a vida") , também do Vinícius, mas em parceria com Tom.
Sinceramente, essas duas canções poderiam credenciar Elizeth Cardoso facilmente como a maior de nossas cantoras ("Voz de mãe, mãe de todas as cantoras do Brasil", diz Chico Buarque em um encarte da caixa). Mas ainda há muito mais no show, momentos que para a platéia presente devem ter sido inesquecíveis, como a interpretação magistral dela para "Feitio de Oração" e "Feitiço da Vila", ambas de Noel Rosa. Elizeth tinha 49 anos no dia do show, mas cantava docemente, não como uma velha senhora conhecida como "divina dama" (como era sua imagem ao fim de seus dias) e sim como uma artista explodindo em êxtase, em energia, fazendo a voz ganhar coragem. A voz de Elizeth tinha coragem, é isso.
O refrão da marcha carnavalesca "Barracão" (Luiz Antonio/Oldemar Magalhães) mostra essa coragem, com simplicidade - Elizeth transforma a marcha em um lamento de protesto, uma música que dá arrepios, ainda mais naquele ano de 1969, e ainda mais dois meses depois do AI-5. ("Vai, barracão, pendurado no morro/me pedindo socorro/A cidade a teus pés/Barracão de zinco/Tradição do meu país/Pobretão, infeliz").
Enquanto Elizeth canta como se fosse se despedir da vida ao fim do show, vale frisar que Jacob do Bandolim, Época de Ouro e Zimbo Trio tocam ABSURDAMENTE. Há três faixas só do trio (baixo, piano e bateria) jazzístico, sem contar três de Jacob, tocando "Murmurando" (não me lembro de quem), "Noites cariocas" (se você ainda não se cansou de ouvir esse choro, não se canse antes de ouvir com o autor, o próprio Jacob) e "Chega de Saudade". Sobre esta última, Jacob contou em carta sobre o encontro com Tom Jobim. Segundo o bandolinista, Tom reclama: "Como é que você sabe que esse samba tem TODAS as 17 versões ERRADAS?".
Traduzindo: além de tudo, o CD ainda tem "Chega de Saudade" em versão instrumental, tocada por Jacob do jeito que Tom queria de verdade.
Tendo sobrevivido a um enfarte meses antes (sua mulher estava no início da platéia com remédios para uma eventual recaída), Jacob do Bandolim consegue ser o maestro desse encontro mágico - não conheço bem sua biografia, mas sei que esse show deve ter sido a última grandiosidade que ele cometeu, já que morreria em agosto daquele mesmo ano.
Há quem considere "Chão de Estrelas" (de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa, uma das músicas escritas no calçadão da 28 de setembro em Vila Isabel) o momento máximo desse show ("A porta do barraco era sem trinco/mas a lua furando nosso zinco/salpicava de estrelas nosso chão"). Mas é perigoso afirmar, porque depois dela os gigantes em palco ainda tocam "Lamento" (Pixinguinha/Vinícius), "Tempo Feliz"(Baden-Vinícius), "Apelo"(idem), "Carolina" (Chico Buarque), "Até amanhã" (Noel Rosa) e "Carinhoso" (também do Pixinguinha, mas com João de Barro). É um disco em que tudo atinge o nível máximo: repertório, músicas, composições, letras, melodia, voz, acompanhamento e até o público, que encerra tudo cantando "Está chegando a hora" (a versão em português de "Cielito Lindo" que cantamos ao fim dos jogos no Maracanã) com o acompanhamento de Jacob do Bandolim.
Será difícil alguém igualar o feito desses gigantes no João Caetano. Não me lembro em que ano morreu Elizeth, mas me lembro do que a ironia do destino reservou para ela: seu velório foi encaminhado para o mesmo teatro João Caetano onde ela soltou sua voz para voar pela eternidade. E por coincidência, naquele mesmo dia haveria show do humorista Ary Toledo, que pensou em cancelar ? mas foi convencido a seguir com o compromisso. As pessoas então saíam rindo do teatro até se depararem com o velório de Elizeth.
Ela, que anos antes, quando chamada de "a maior cantora do mundo", fez que "não? com a cabeça e disse: "A maior cantora do mundo está lá em cima", referindo-se a uma certa Elis Regina. Ao ler isso no texto de Hermínio Bello de Carvalho que vem com o disco, entendi porque Elizeth era "A Divina" - é preciso ser realmente do mundo divino para não fazer questão de ser a maior no mundo dos homens. Ouvir esse show é uma forma de estar em algum lugar com Elizeth.