10 junho, 2006

Indíviduos competentes, eles



Dessas coisas estranhas que acontecem em Copas, veio a morte de Fiori Giglioti, na quinta-feira, em São Paulo. Dos tempos em que locutor era artista - hoje locutor é anunciante e quem é artista é o DJ - Fiori representa, com certeza, para o paulista de mais de 30 anos aquele amargo da infância perdida, dos melhores anos da vida que se foram para nunca mais voltar. Evidentemente que não acompanhei, sendo carioca, a carreira de Fiori, mas sua fama ultrapassava as divisas e eu mesmo, em poucas idas a São Paulo, pude ouvir o bordão "Estão abertas as cortinas do espetáculo", com que ele anunciava de forma imponente que ali começava a ser decidida mais uma vez uma batalha do bem contra o mal - que é como todo bom torcedor vê o clássico. "O bem e o mal disputam batalhas eternamente, e o campo de batalha é o coração dos homens", diz um personagem de Irmãos Karamazov, que a falta de neurônios e os anos não me deixam lembrar agora. Um clássico, na voz destes senhores já desaparecidos, tinha esta conotação - dali se decidiria qual modo de vida prevaleceria, qual santo guerreiro subiria aos céus.
Ora, e todo grande clássico evidentemente termina (?) assim - ou mesmo se eterniza desta forma. Vide o gol de Rondinelli em 1978, quase TRINTA anos depois ainda inesquecível, ainda representativo do que é ser Flamengo.
O Brasil e o brasileiro têm de agradecer muito a senhores como Fiori Giglioti, Waldir Amaral e Jorge Cúri, os dois últimos os imortais da Rádio Globo, já no fim da carreira (ali por volta de 1978 e 1979) narrando um tempo de jogo cada um. Criança, gostava mais de Jorge Cúri, notório rubro-negro, que não poupava um "É golaaaaçooooo!" emendando com um goooool de quase um minuto de duração quando Zico cobrava falta no ângulo.
Depois de adulto (adulto escreve em blog?) passei a reconhecer Waldir Amaral e a ter muita saudade de suas expressões singulares - "Calibra o centro, executa, entra Zico de cabeça é goool". Calibra o centro - que visão maravilhosa! Era Toninho Baiano ajeitando a bola um pouco antes de jogar na área. Parecia durar horas essa calibragem. Depois do gol, "tem peixe na rede do Vasco, choveu na horta do Mengão campeão". E a música imortal, que ecoa nos porões da memória e finca na saudade tal e qual bambu embaixo da unha: "Que bonito éééé/A bandeira tremulando/A torcida delirando/Vendo a rede balançar..."
Foi graças à genialidade destes senhores que hoje quem tem 30 anos ou mais permanece gostando de futebol, repassando a paixão para os filhos. Se tivéssemos narrações tristes, repletas de jabás e de "mary-futys" como hoje, talvez nosso fanatismo não fosse o mesmo. Mas havia Jorge Cúri a batizar de forma maravilhosa nossos craques. Zico, claro, o Galinho de Quintino. Júnior era o Capacete. Leandro, o Peixe Frito. Rondinelli, o Deus da Raça. Júlio César, batizado por Waldir Amaral como Entortador e pela massa como Uri Geller - enfim, tempos em que se estabeleceu de vez a doutrina Flamengo, a religião rubro-negra. E havia Adílio, batizado com o orgulhosíssimo apelido de Neguinho Bom de Bola. Claro, os pentelhos politicamente corretos de hoje, os racistas disfarçados de antiracistas, os zés manés se horrorizariam. "Como um locutor chama o cara de neguinho". Ma che catzo, o problema é que o apelido é perfeito. Franzino, pernas finas, meias arriadas, como se Deus nos tivesse compensado Geraldo, Adílio era a personificação do craque extraordinário surgido da pobreza, da miscigenação, resgatado da miséria e possivelmente de um futuro presídio. Mais do que ninguém, mais do que nada, Adílio era o Neguinho Bom de Bola e cabia a Jorge Cúri descrever seu caminhar tal e qual um Moisés lendo os mandamentos escavados na pedra da lei.
E entre estes dois sujeitos, havia a figura paterna ao meu lado, torcendo por estes seres mitológicos que nos mostravam o Olimpo aqui na Terra. O rádio gasto ao lado, pifava, corríamos para sintonizar a rádio no aparelho tosco de som. Valia até filar do vizinho tricolor. E lá estava Waldir Amaral a nos contar, como se fosse um correspondente do outro mundo, que "10 é a camisa dele, indivíduo competente o Zico". Nestes dias de Copa, sem Waldir Amaral, Jorge Cúri e agora Fiori Giglioti, fico pensando se é mera coincidência ou se o futebol mudando, mudou tudo na nossa vida e tudo está mais interesseiro. Hoje, a vitória tem patrocínio e anunciante. Naquele tempo, a vitória era apenas dois grandes locutores e uma camisa simplesmente vermelha e preta, de tiras estreitas, às vezes suja de sangue. Era? A vitória é. Continua, sempre, enquanto a mente puder viajar ao cruzamento de Zico que Antonio Rondinelli Tobias alcançou.

4 Comments:

At junho 11, 2006 3:31 AM, Anonymous Marcele said...

Os apelidos que eles colocavam nos jogadores eram realmente sensacionais! Adorei esse post. Mas eu sou suspeita, né?
Beijos!

 
At junho 11, 2006 9:00 PM, Anonymous André Macahdo said...

aí, até que enfim, pô! Não agüentava mais ver aqueles posts de fevereiro aqui.

Vamos combinar de levar um som (pode ser com violão mesmo) dia desses? Estou seco por um rock.

 
At junho 12, 2006 1:49 AM, Anonymous Mauricio Neves said...

Sensacional! "Correspondente de outro mundo"... Era assim que eu sentia, aqui do outro lado do mundo, no interior de Santa Catarina. Quando o Curi dizia "Anooootemmmm... Teeempo e placar no maior do mundo!!!" eu imaginava o vozeirão ecoando num Maracanã de 200 mil pessoas e pensava: "- Um dia irei ao Maracanã". Mas nenhum Maracanã é melhor do que aquele, do meu futebol visto pelo rádio.

 
At agosto 21, 2006 3:07 AM, Anonymous Anônimo said...

Keep up the good work
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