01 abril, 2002

Texto bom mesmo
Muita gente diz que eu escrevo bem. Mas no fundo, sei que só escrevo textos emocionantes e nem sempre sou informativo. Para ilustrar o que quero dizer, coloco abaixo um texto bom de verdade, sobre um tema longe do lugar comum, bem escrito, informativo, que vem a ser a abertura do Spam Zine dessa semana. Se você ainda não assinou, clique aí do lado e aproveite textos como esse abaixo. Vem a ser do grande Alexandre Inagaki, mais uma vez dando aula do que é escrever. Curtam:
Em tempos dantes navegados, 31 de março era celebrado na escola como o Dia da Revolução (sic) de 1964, e éramos obrigados a pintar bandeirinhas do Brasil e a cantar o Hino Nacional no pátio do colégio. Com as mãos encostadas no peito, soltávamos nossas vozinhas agudas em uníssono, repetindo mecanicamente uma letra hermética, como se isso fosse capaz de despertar ufanismo em alguém. Oras, é como esperar que um moleque de 11 anos vá criar gosto pela leitura depois de ser obrigado pela escola a ler Iracema ou Eurico, o Presbítero. Mas, no meu caso, o Hino soava mais nonsense ainda. Porque, na maior das convicções pueris, eu cantava a seguinte pérola: "Elvira do Ipiranga às margens plácidas". Passei anos intrigado com o misterioso papel de Dona Elvira na proclamação da independência, especulando se não era um pseudônimo da Marquesa da Santos.
Anos mais tarde, descobri uma expressão criada por Paulo Francis, ainda na época do primeiro Pasquim, para definir essas ocasiões em que a cabeça da gente viaja longe e recria maionesicamente letras de música: "virundum". Inspirada, bobviamente, pelo fatídico verso inicial de nosso hino, que até hoje causa lapsos em patriotas incautos e jogadores da Seleção, ao cantarem coisas como "verás que um FILISTEU não foge à luta" ou "do que a terra MARGARIDA". Há uma expressão mais contemporânea - "dibikini". Originada daquele velho hit do grupo Brylho, Noite do Prazer: "na madrugada vitrola rolando um blues/ tocando B. B. King (ou: trocando de biquíni) sem parar".
Os americanos também possuem um termo para isso: "mondegreen". E pra que vocês vejam como a história é antiga, a expressão data de 1954, quando a jornalista musical Sylvia Wright confessou, em um artigo, que havia entendido "lady Mondegreen" no verso de uma canção que dizia "and laid him on the green". No site Kiss This Guy (http://www.kissthisguy.com) é possível encontrar mais de 2.500 exemplos de letras involuntariamente modificadas. Eye of the Tiger, a música-tema de Rocky, o lutador, tornou-se "Ivan the tiger". Love in an Elevator, do Aerosmith, virou "loving an alligator". E daí pra pior.
Aqui no Brasil, o "mondegreen" mais hilariante que conheço foi descrito pelo Mário Prata. Uma amiga dele confessou que, ao ouvir Ciranda Cirandinha, entendia que o verso "o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou" na verdade significava "o amor de Tumitinhas era pouco e se acabou". Para ela, Tumitinhas devia ser um menino japonês (Tumita, na verdade) que se decepcionava muito toda vez que se deparava com a volatividade de suas paixões. Quando ela descobriu que o Tumitinhas não existia, sofreu pra burro. Ela faz análise até hoje.
Outra especialista em "dibikinis" é a minha amiga Patricia Correia, a.k.a. Sra. Pedro Vitiello. Que, ao cantar o tema de abertura do Sítio do Pica-Pau Amarelo, em vez de "bananada de goiaba, goiabada de marmelo", cometia: "banana a dar de goiaba, goiaba a dar de marmelo". Ou que, ao escutar Como Nossos Pais, da Elis, em vez de "mas é você que ama o passado e não vê", bradava: "mas é você que é mal passado e não vê".
Vai, confessa aí: qual foi o pior "virundum" que você já cometeu?


Em tempo: caro Inagaki, o meu pior "Virundum" foi mesmo o de "Como nossos pais". Durante anos ouvi "você que é mal passado".

1 Comments:

At julho 29, 2008 12:50 PM, Anonymous Tiago José said...

Minha vó me dizia que quando ela era pequena cantava, "Foi a crista que caiu do galo, deu dois suspiros e depois morreu..." da música
"Foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu" da música Jardineira

 

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