27 novembro, 2001

Pros que estão em casa
Uma homenagem ao guitarrista, baterista e jornalista André Machado, que eu mesmo apelidei de "The Axe" (O Machado) pela maneira singela com que detona pratos e bumbos na bateria: um texto inédito dele, sobre a importância do rock and roll para a alma dele, e para todas.

AVE AEROSILVA (Ou: de como o rock-testosterona salvou uma vida)
por André Machado

Minha mãe tinha um violão, mas eu nunca dera atenção a ele até meus onze anos. Foi quando a turma do prédio começou a estudar violão com uma professora, e me perguntaram se eu não queria aprender também. Até então, curiosamente, minha vida fora uma grande redoma de silêncio. Eu não ligava para nada em especial em música, quando muito algumas coisas legais da Jovem Guarda, quando o Rei era realmente o Rei.
Quando comecei a aprender, tudo mudou da noite para o dia. Passei a ficar com o ouvido grudado no rádio, tentando imitar tudo o que é música. Em pouco tempo tirava as canções sozinho. Cheguei a dar um show com os amigos e fiquei empolgadíssimo.
Quando ganhei minha primeira vitrola, um modelo Philips portátil, já tinha começado a ficar fissurado em rock and roll, isto é, no que ouvia nas novelas, na TV. Não conhecia nada de nada ainda. Mas tive a bênção de ganhar, como primeiro vinil, em meu aniversário de doze anos, "Os grandes sucessos de Bill Haley and His Comets". Pirei. O disco virou figurinha fácil nos hi-fis da época. Depois vieram Elvis, Slade, Kiss, AC/DC, Deep Purple & cia, e me viciei sem volta nas guitarras.
Como não podia deixar de ser, assim que consegui juntar algum, aos dezesseis comprei minha primeira guitarra, uma Felpa Coronado ou Apache verde, rosa e preta (!!!!). Uma verdadeira "bicheira", mas para mim o som era de outro mundo. Agora era montar uma banda de rock. Aí começou meu calvário. Entrei para uma banda cujos integrantes eram incríveis, mas os gostos musicais não se encaixavam. Durante anos a fio a amizade falou mais alto e toquei e compus de jazz a samba, passando por MPB, boleros, baiões e mais o que se possa imaginar -- tudo em nome da diversidade e da união. Havia até um rock ou outro, mas nada que conseguisse saciar minha sede de pauleira.
Tentei outros projetos, um de MPB, outro de punk, enquanto a banda original trocava de formação mas mantinha a falta de identidade musical. Por fim, já trabalhando como jornalista (a música sempre foi uma estrada empírica e paralela em minha vida, apesar de tudo -- mesmo com todas as minhas hesitações ao longo dos anos, hoje sei que não podia deixá-la tornar-se uma profissão: ela faz parte de outra realidade), decidi acompanhar um remanescente da banda, grande figura, para não enferrujar meus
dedos e manter a chama acesa. E eis que, hoje, prestes a chegar aos 39 e adentrar a seara dos "enta", minha vida foi salva miraculosamente por dois animais roqueiros, Marlos e Gustavo.
Um sucinto e-mail me perguntou, em meados de 2000, se eu não queria trocar a guitarra pela batera (o que eu já tentara no projeto punk) num power trio de raiz, cheio de testosterona e baseado nos Imortais: Stones, Who, Doors, Hendrix, Rory Gallagher... Topei na hora, sem saber se conseguiria. Mas o primeiro ensaio foi uma tempestade eletroquímico-musical. Parecia que tocávamos juntos há anos. Um puxava um som, o outro gritava "essa eu sei, peraí" e a coisa fluía, regada sempre a generosas doses de álcool. Nada de sobriedade no roquenrou, man.
A vida hoje em dia está bem longe daquela redoma dos meus onze anos. Não haverá mais silêncio, a não ser aquele que antecede o próximo rock, ou o que às vezes nos toma de assalto quando fumamos um cigarro entre uma jam e outra. Não sabemos o que dizer, talvez porque os corações estejam urrando e prefiram evitar a tergiversação das palavras. E, se algum dia houver um show do Aerosilva (nome nada original, mas já pegou), ele não terá plano nenhum, apenas o reagrupar de cacos, porradas e desilusões de três almas. E tudo será impiedosamente lançado a uma pira funerária ao primeiro ranger distorcido de um acorde.